Arquivo da categoria: Ciência

A verdadeira ciência é serva da Teologia!

Parecer sobre clonagem

Parecer sobre clonagem

 

Político / científico progressista

 

            A ovelha, símbolo religioso da redenção dos homens, inaugura abruptamente o século XXI, dando origem à era dos clones, período no qual os cientistas brincam de Deus, precisando para isso simplesmente fundir um óvulo não fecundado, retirando o miolo genético, com uma célula doada pelo ser vivo que se quer copiar. Depois será necessário somente implantar o resultado da fusão no útero de um terceiro ser vivo, e pronto, eis o “clone”, a cópia exata do ser doador da célula!

            Desde que inventaram o anticoncepcional obtêm-se prazer sexual sem gerar filhos. Com os bebês de proveta consegue-se filhos sem prazer sexual. E agora estamos prestes a ter filhos sem prazer e sem espermatozóides.

            É uma revolução para as feministas que as mulheres não precisem da participação do homem para se ter um filho.

            É importante lembrarmos que para os animais em extinção, a clonagem veio a calhar, dando assim origem a novos seres da mesma espécie, mas será que vai funcionar para seres humanos?

 

Político / Religioso Tradicional

 

            Atualmente foi possível que uma ovelha chamada “Dolly” viesse ao mundo como um pedaço de outro ser adulto, sendo assim não tem pai nem mãe. Ela tem apenas, origem, que não é divina, é humana! Dolly é o que a ciência chama de clone, palavra grega que significa broto. Clone é a cópia idêntica de outro ser vivo.

            O desenvolvimento tecnológico e científico, fez com que surgisse a engenharia genética. É uma invenção que, num plano absoluto, tem como finalidade ética visar o bem, e o maior dos bens criados pela ciência e pela tecnologia faz surgir dilemas éticos, a igreja, por exemplo, acredita no espírito e alma, não poderá aceitar a reprodução humana em laboratório, um processo artificial criado pelo homem num momento em que brinca de ser Deus.

            Assim sendo, clones humanos não reconheceriam a religião como uma força que eleva o homem e o encaminha para as boas ações. O valor espiritual e as manifestações para com Deus, deixariam de existir, tudo isso só será possível claro se o Senhor YHWH concordar com a clonagem e doar o espírito ao novo ser! PESO da palavra do SENHOR sobre Israel: Fala o SENHOR, o que estende o céu, e que funda a terra, e que forma o espírito do homem dentro dele. (Zacarias 12 : 1)

 

 Religioso / Progressista

 

            Há muitos anos, quando se falava em fertilização “in vitro” “bebês de proveta”, era um verdadeiro pandemônio. Críticas acirradas nos meios religiosos, idéias preconcebidas imperavam e a condenação veio célere, mesmo sem haver ainda uma apreciação mais judiciosa sobre as possíveis conseqüências do nascimento de bebês de proveta.

            Hoje, os primeiros seres humanos que ganham vida a partir desse método, já estão adultos e continuam saudáveis, tanto quanto aqueles com nascimento natural, dando muita felicidade às mães que, de outra maneira, não teriam a possibilidade de gerar filhos naturais.

            O mesmo pode ocorrer com a clonagem? Começou com os vegetais, visando seu aprimoramento genético para melhorar a produção de alimentos, e mais recentemente as experiências com animais que deram resultado positivo, sinalizando a possibilidade inquestionável de se produzir seres humanos da mesma forma.

            Como é natural, muitas críticas começam a empolgar a opinião pública e algumas correntes religiosas se declaram contrárias à clonagem de seres humanos. Mais uma vez, emitem opiniões sem a necessária análise mais profunda dos fatos. que Deus deu aos homens a faculdade intelectual para avançar no conhecimento científico e buscar seu aprimoramento com o objetivo de trazer mais bem estar à nossa sofrida humanidade, é indiscutível mas até que ponto será correto fabricar seres humanos artificialmente?

 

         Político Científico Tradicional

 

A curiosidade do ser humano é tão grande em desvendar os mistérios entre o céu e a Terra, que muitos cientistas cometem aberrações contra a natureza.

            Nos anos 70, grupos de embriologistas clonaram sapos adultos a partir de uma única célula, nada notável, a maioria dos anfíbios se regeneram naturalmente.

            Nos anos 80, foram inseminados em vacas, embriões clonados, a pesquisa foi interrompida quando se descobriu que um em cada cinco bezerros nascia maior que o normal e, um em cada vinte era gigante!

            Atualmente uma equipe escocesa liderada por Ian Wilmut, fez com oito oito ovelhas o mesmo processos feito com as vacas acima que deveriam fazer a gestação. Três implantes não se desenvolveram e foram retirados. Um dos fetos apresentou crescimento descomunal, que foi necessário fazer uma cesariana de emergência.

            Três filhos morreram logo que nasceram, só uma das ovelhas sobreviventes teve peso normal, a ovelha Dolly.

            Descobriu-se que os cientistas esconderam propositalmente detalhes assustadores do que tinham feito, criaram pelo menos, seis monstros genéticos. Será diferente com seres humanos?

            Como a mãe genética de Dolly, a ovelha doadora da célula mamária que originou o experimento, morreu logo depois, não se pôde comparar seus códigos genéticos para provar que são idênticos. Se a ovelha mãe estivesse viva, seu criador teria como exibir a prova definitiva: dois seres geneticamente idênticos, gêmeos, portanto, só que um deles com 7 meses e outro com 7 anos de idade. É assim que a ciência caminha.

 

 

 

 

 

 

Anúncios

Nanotecnologia – Montando a matéria átomo por átomo!

NANOTECNOLOGIA

 

(A ARTE DE MONTAR MATERIA. ATOMO POR ATOMO)

As palavras soavam como que saídas da boca de um visionário: “Não tenho receio de considerar como questão final se, por fim no futuro distante, nos pudermos arranjar os átomos da maneira que quisermos. O que aconteceria se pudéssemos arranjar os átomos, um por um, do jeito que quiséssemos?”

Na época em que o físico americano e aprendiz de profeta Richard Feynman (1918-1988) devaneou diante de uma platéia incrédula, o mundo não era lugar para pequenas idéias. Em dezembro de 1959, quando Feynman proferiu as visionárias palavras na palestra “Há muito lugar no fundo” para seus colegas da Sociedade Americana de Física, os computadores ainda eram geringonças que ocupavam metade das salas em que eram colocados. Feynman falava em manipular átomos num tempo em que ninguém sequer tinha visto um deles. Trinta anos depois, o sonho do físico ganhou forma na ciência do muito pequeno, a nanotecnologia, assim chamada porque seus objetos de estudo costumam ser medidos em nanômetros – 1 milhão de vezes menor que 1 milímetro.

O que aconteceria se pudéssemos mover átomos? Perguntava Feynman. Respondem os cientistas que os manipulam hoje: poder-se-ia construir supercomputadores que coubessem no bolso, gravar bibliotecas inteiras em superfícies de centímetros quadrados, colocar microssondas para fazer testes sanguíneos dentro do corpo humano. Tudo isso ainda é suposição, previsão, talvez sonho. “A preocupação fundamental não é a aplicação das descobertas na prática, mas a pesquisa pela pesquisa. Os resultados disso só se tornarão visíveis dentro de uma década ou mais”, O mundo futuro imaginado por Drexler, em que se construirão aparelhos ou substâncias molécula por molécula, foi ridicularizado por alguns de seus colegas cientistas da mesma forma que a maioria dos físicos presentes à palestra de Feynman acreditava que ele estava simplesmente brincando. A nanotecnologia só existe hoje como prática porque, há quase sessenta anos, os cientistas que estudavam a matéria derrubaram sólidos conceitos da Física clássica e criaram a Física quântica, onde as partículas como os fótons e os elétrons não se comportam como no mundo de gente grande, ou seja de forma padronizada. O microscópio de varredura por efeito túnel (scanning tunnelling microscope, ou SIM), a ferramenta fundamental para a entrada no pequeno mundo, é filho da Física quântica. Lá, onde os átomos se contam às unidades, os elétrons sofrem de dupla personalidade comportam-se ao mesmo tempo como partículas e como ondas (mais ou menos como se fossem ao mesmo tempo balas de um revólver e onda do mar). Isso é inadmissível para a Física clássica, mas perfeitamente aceitável para a Física quântica, mesmo que não se compreenda muito bem o porque.

A clássica imagem do átomo com um núcleo de prótons e nêutrons, em torno do núcleo, onde os elétrons circulam em órbitas, também foi por água abaixo. O aspecto mais importante da Física quântica para os nanocientistas é a descoberta de que os elétrons ás vezes andam por onde não deveriam. Normalmente, os elétrons param de se mover quando não tem energia para transpor uma barreira à sua frente. No reino da Física quântica, no entanto, há determinadas circunstancias em que os elétrons encontram uma barreira tão fina que há probabilidade de que eles simplesmente a ignorem e sigam em frente – é o chamado efeito túnel. Seria apenas mais uma descoberta teórica se, em 1981, uma equipe do laboratório da IBM em Zurique, na Suíça, não tivesse transformado essa maluquice do elétron num aparelho de enxergar átomos – ele mesmo, o microscópio de efeito túnel. O invento valeu a Gerd Binnig e Heinrich Rohrer o Prêmio Nobel de Física, em 1986. Esse microscópio nada mais é do que uma minúscula ponta feita de material condutor que percorre – ou varre – toda a superfície da amostra a ser analisada. A ponta e o substrato onde se deposita a amostra ficam ligadas por um circuito. Aplica-se uma tensão elétrica no circuito e abaixa-se a ponta do microscópio até quase encostar na amostra. É um “quase” imperceptível ao olho humano, pois a distancia entre a ponta e a amostra chega a alguns nanômetros. Pois os elétrons, que só deveriam passar da amostra para a ponta se as duas estivessem encostadas, simplesmente pulam pelo ar – tunelam -, fechando o circuito entre a ponta e a  amostra, e criando uma corrente com uma voltagem infinitamente pequena, da ordem de alguns nanoampéres. É um grande salto para o elétron e um grande passo para a humanidade.

Com o microscópio de efeito túnel, passou-se a enxergar os átomos, antes jamais vistos, e, melhor ainda, conseguiu-se manipulá-los. Certo que dizer “enxergar” átomos chega a ser uma licença poética, pois o que se vê é uma imagem simulada da variação da corrente elétrica. O levantar e abaixar da ponta do microscópio é uma operação que exige precisão muito além do que qualquer mão humana ou mecânica possa alcançar. Esse trabalho é feito pelos cristais piezoelétricos, como o quartzo, que se expandem ou encolhem quando recebem tensão elétrica (sim, mexem-se apenas alguns nanômetros). Há três cristais: o do eixo z (que se move para cima e para baixo), o x (para a frente e para trás) e o y (para a esquerda e para a direita). Quando a ponta do microscópio começa a varrer a amostra, movendo-se nos eixos x e y, o eixo z fica na mesma. Porém, quando a ponta encontra uma pequena montanha pela frente, ou seja, um átomo mais alto que os outros, a voltagem da corrente elétrica aumenta, pois a distancia em relação à amostra diminuí. No modo de operação mais comum, o de voltagem constante, o eixo z deve, portanto receber uma alteração de tensão, para que se contraía e suspenda a ponta do microscópio de modo a fazer a voltagem retornar ao valor prévio. A variação da tensão do cristal z resulta num gráfico, que é transformado em imagem – está pronta a fotografia dos átomos. Obviamente, o microscópio de efeito túnel só funciona com amostras de materiais condutores ou semicondutores; do contrário, não haveria passagem de corrente elétrica. Materiais isolantes, como vidro ou células vivas, seriam invisíveis ao SIM.

Que o pequeno mundo não se perca por isso – o mesmo Gerd Binnig deu um jeitinho e inventou uma ponta de microscópio capaz de enxergar qualquer coisa. Ele acoplou à ponta um pequeno fragmento de diamante, que contorna os átomos da amostra exercendo uma pressão pequena o suficiente para não destruí-la. É o microscópio de força atômica (AFM, em inglês). Conforme o fragmento de diamante se move quando encontra saliências, move-se também a ponta, criando-se então imagens como no SIM. Mais importante do que ver átomos é a possibilidade de movê-los, um a um. Isso acontece quando se aplica uma tensão, elétrica muito forte entre a ponta do microscópio e a amostra – um átomo salta e gruda na ponta. Se a polaridade da corrente for invertida, o átomo volta para baixo com força, ficando encravado naquele ponto. Desde que o pesquisador americano Don G. Eigler, do laboratório da IBM na Califórnia, nos Estados Unidos, alinhou átomos de xenônio para escrever o logotipo da empresa sobre uma superfície de níquel, começou urna verdadeira corrida entre os cientistas para conseguir o melhor domínio da técnica de arrancar átomos de um ponto e colocá-los em outro. O homem enfim toca o coração da matéria e, átomo por átomo, pode chegar a construir moléculas sob medida. Chega ao sonho de montar um minúsculo supercomputador. Em laboratório, pelo menos, já se demonstrou que isso funciona, quando se verificou que a mudança de posição de um átomo de xenônio, ora sobre uma superfície de níquel, ora grudado na ponta do microscópio, causava uma variação na corrente elétrica que bem poderia servir como 0 e 1 do código binário. Claro que isso é inviável como tecnologia, já que uma das partes desse interruptor molecular é o próprio microscópio.

Na hora de armazenar informações, a nanotecnologia pode encolher a níveis absurdos o tamanho do suporte para gravá-las. John Mamin, também do laboratório da IBM na Califórnia, desenhou um mapa com átomos de ouro para demonstrar o potencial de armazenagem de informações em pouco espaço. Da mesma maneira que a superfície plana alternada com buracos num compact disc forma a linguagem binária, um simples átomo e sua ausência construiriam a mesma linguagem numa nanoamostra. A técnica de Mamin poderia armazenar a obra completa do dramaturgo inglês William Shakespeare numa superfície menor do que 0,2 milímetros. É uma densidade de informação l0 000 vezes maior do que o melhor disco de computador existente. Eric Drexler pensa longe quando visualiza aonde tudo isso pode levar: “Em curto prazo, acredito que a nanotecnologia será pioneira no lançamento de novos instrumentos científicos voltados para a medição de escalas moleculares. Depois disso, provavelmente encontrará um campo de ação fértil na computação, primeiro na área da memória, e em seguida nos próprios computadores. Haverá também aplicações importantes nos produtos resultantes da manufaturarão molecular, na medicina, nos equipamentos para uso aéreo e espacial, em instrumentos de proteção do meio ambiente e inclusive no desenvolvimento de novos instrumentos para esse fim”. Uma das idéias de Drexler neste campo é a criação de nanomáquinas, que seriam lançadas na estratosfera para capturar átomos de cloro e resguardar a camada de ozônio do planeta.

Embora ainda não tão pequenos, já existem micro motores e micros sondas fabricadas com a mesma técnica dos chips de silício dos computadores. Sobre finas camadas de materiais semicondutores, como arsenieto de gálio, grava-se o padrão desejado para aquela camada e corroem-se as partes restantes, que depois podem ser preenchidas com outras substâncias. Na Universidade de Michigan, construiu-se uma microssonda de apenas 4,7 milímetros de comprimento, que permite estudar com detalhes tanto o cérebro humano como os circuitos neuronais, que imitam o funcionamento do cérebro. Micro motores de diâmetro menor que um fio de cabelo estão saindo do laboratório prontos para fazer rodar as futuras microengenhocas ou, enquanto estas não chegam, movimentar as partes ultra-sensíveis de equipamentos atuais, como a cabeça de leitura de discos magnéticos nos computadores. .

(Por Fátima Cardoso)

(Fotos:IBM, Philippe Playlle)

 

O que é nanotecnologia?

O que é nanotecnologia?

Há mais de 2.500 anos, alguns filósofos gregos se perguntavam se a imensa variedade do mundo que nos cerca não poderia ser reduzida a componentes mais simples. A própria palavra átomo vem daquele tempo e significa “indivisível”. A última fração da matéria, segundo esses filósofos o “tijolo” fundamental de tudo o que existe, não poderia mais ser dividida em outras partes mais simples. Podemos fazer uma comparação elementar, apenas para fins didáticos. Em uma padaria, você encontra uma grande variedade de pães, bolos, biscoitos, tortas, todos produzidos a partir de um pequeno número de ingredientes: farinha, fermento, manteiga, óleo, açúcar, chocolate etc… Muitas vezes, os ingredientes de pães diferentes são os mesmos, apenas mudam suas quantidades relativas e a forma de preparação. Da mesma maneira, quando olhamos o mundo a nossa volta, vemos uma variedade incrível de seres vivos e objetos inanimados, de um grão de areia a galáxia, de um vírus a uma baleia. Quantos tipos de “ingredientes” diferentes são necessários para produzir esse mundo?

Entre os gregos e a nossa época, muito se aprendeu sobre o universo. Sabemos, hoje, que o mundo que nos é familiar é formado por átomos, não exatamente aqueles imaginados inicialmente, mas que com eles compartilham o papel de “tijolos” fundamentais. Aprendemos que, ao contrário do que diz seu nome, eles são, de fato, divisíveis (mas isto é uma história para outra ocasião). Os átomos são formados por um núcleo positivo, onde reside praticamente toda sua massa, e por elétrons, negativos, que circulam em torno do núcleo. Sabemos, também, que ocorrem naturalmente no universo apenas noventa e dois tipos de átomos diferentes. Estes tipos podem ser classificados pelo número de prótons (partículas sub-atômicas de carga elétrica positiva) contidos em seus núcleos. Sabemos ainda que esses átomos podem não ser o fim da história, pois pode haver no universo, partículas ou alguma forma de energia ainda não descobertas – ou pode ser que nossas teorias sobre o universo precisem algum dia ser revisadas, se esses novos “ingredientes” não forem encontrados. Tudo isto é parte do mundo fascinante da pesquisa científica – cada pergunta respondida leva a novas perguntas. Em ciência, as respostas raramente são definitivas, mas as perguntas perduram.

A certeza científica de que tudo é feito de átomos é muito recente. Há apenas cerca de cem anos, os cientistas obtiveram evidências fortes de que a velha hipótese atômica, formulada há dois e meio milênios, correspondia à realidade da natureza. No decorrer do século XIX, os químicos foram aos poucos se convencendo de que a melhor maneira de explicar quantitativamente reações químicas é supondo que essas se dão entre unidades bem definidas de cada composto. Alguns físicos, já quase no final do século XIX, formularam uma teoria “estatística” da matéria, na qual se busca explicar o comportamento dos corpos com os quais lidamos quotidianamente pelo comportamento dessas pequenas unidades “invisíveis” da matéria, os átomos e as moléculas (moléculas são átomos do mesmo tipo ou de tipos diferentes, fortemente ligados entre si, formando novas entidades, com propriedades físico-químicas distintas). Essas teorias foram recebidas, inicialmente, com grande ceticismo pela própria comunidade científica. Por que tanta dificuldade para aceitar uma idéia velha de milênios?

O problema é que átomos são muito pequenos, medem menos de um centésimo de bilionésimo de metro, e obedecem a leis físicas bastante diferentes daquelas com as quais estamos acostumados no nosso mundo familiar. O seu tamanho é tal que não podem ser vistos diretamente. Instrumentos especiais tiveram de ser desenvolvidos antes que fosse possível “ver” um átomo. Um dos mais práticos desses instrumentos, o microscópio de tunelamento, somente foi inventado na década de 1980. Seus inventores, Heinrich Rohrer e Gerd Binnig, dos laboratórios da IBM em Zürich, Suíça, ganharam o prêmio Nobel por seus trabalhos. O funcionamento desse microscópio depende das leis da mecânica quântica, que governam o comportamento dos átomos e moléculas. Portanto, a existência de átomos e as leis da natureza no mundo atômico tiveram de ser pacientemente descobertas a partir de experimentos especialmente concebidos. Este processo levou décadas e envolveu grandes cientistas.

Instrumentos como o microscópio de tunelamento e outros estendem nossa “visão” até tamanhos na faixa de bilionésimo de metro. Um bilionésimo de metro chama-se “nanômetro”, da mesma forma que um milésimo de metro chama-se “milímetro”. “Nano” é um prefixo que vem do grego antigo (ainda os gregos!) e significa “anão”. Um bilionésimo de metro é muito pequeno. Imagine uma praia começando em Salvador, na Bahia, e indo até Natal, no Rio Grande do Norte. Pegue um grão de areia nesta praia. Pois bem, as dimensões desse grão de areia estão para o comprimento desta praia, como o nanômetro está para o metro. É algo muito difícil de imaginar. Mesmo cientistas que trabalham com átomos todos os dias, precisam de toda sua imaginação e muita prática para se familiarizar com quantidades tão pequenas.

Ainda antes dos cientistas desenvolverem instrumentos para ver e manipular átomos individuais, alguns pioneiros mais ousados se colocavam a pergunta: o que aconteceria se pudéssemos construir novos materiais, átomo a átomo, manipulando diretamente os tijolos básicos da matéria? Um desses pioneiros foi um dos maiores físicos do século XX: Richard Feynman. Feynman, desde jovem, era reconhecido como um tipo genial. Uma de suas invenções foi o primeiro uso de processadores paralelos do mundo. Em Los Alamos, na época do desenvolvimento da primeira bomba nuclear, havia a necessidade de se realizarem rapidamente cálculos muito complexos. Feynman, então, teve a idéia de dividir os cálculos em operações mais simples, que podiam ser realizadas simultaneamente, e encheu uma sala com jovens secretárias, cada qual operando uma máquina de calcular (naquela época não havia computadores, nem calculadoras eletrônicas, e as contas tinham de ser feitas à mão, ou com calculadoras mecânicas limitadas às mais simples operações aritméticas).

Hoje em dia, essa mesma idéia é usada em computadores de alto desempenho, com microprocessadores substituindo as jovens secretárias! Em 1959, em uma palestra no Instituto de Tecnologia da Califórnia, Feynman sugeriu que, em um futuro não muito distante, os engenheiros poderiam pegar átomos e colocá-los onde bem entendessem, desde que, é claro, não fossem violadas as leis da natureza. Com isso, materiais com propriedades inteiramente novas, poderiam ser criados. Esta palestra, intitulada “Há muito espaço lá no fundo” é, hoje, tomada como o ponto inicial da nanotecnologia. A idéia de Feynman é que não precisamos aceitar os materiais com que a natureza nos provê como os únicos possíveis no universo. Da mesma maneira que a humanidade aprendeu a manipular o barro para dele fazer tijolos e com esses construir casas, seria possível, segundo ele, manipular diretamente os átomos e a partir deles construir novos materiais que não ocorrem naturalmente. Um sonho? Talvez, há quarenta anos atrás. Mas, como o próprio Feynman dizia em sua conferência, nada, nesse sonho, viola as leis da natureza e, portanto, é apenas uma questão de conhecimento e tecnologia para torná-lo realidade. Hoje, qualquer toca-discos de CD’s é uma prova da verdade do que Feynman dizia. Os materiais empregados na construção dos lasers desses toca-discos não ocorrem naturalmente, mas são fabricados pelo homem, camada atômica sobre camada atômica.

 

O objetivo da nanotecnologia, seguindo a proposta de Feynman, é o de criar novos materiais e desenvolver novos produtos e processos baseados na crescente capacidade da tecnologia moderna de ver e manipular átomos e moléculas. Os países desenvolvidos investem muito dinheiro na nanotecnologia. Mais de dois bilhões de dólares por ano, se somarmos os investimentos dos Estados Unidos, Japão e União Européia. Países como Coréia do Sul e Taiwan, que têm sido muito melhor sucedidos que o Brasil na utilização de tecnologias modernas para gerar bons empregos e riquezas para seus cidadãos, também estão investindo centenas de milhões de dólares nessa área. Nanotecnologia não é uma tecnologia específica, mas todo um conjunto de técnicas, baseadas na Física, na Química, na Biologia, na ciência e Engenharia de Materiais, e na Computação, que visam estender a capacidade humana de manipular a matéria até os limites do átomo. As aplicações possíveis incluem: aumentar espetacularmente a capacidade de armazenamento e processamento de dados dos computadores; criar novos mecanismos para entrega de medicamentos, mais seguros e menos prejudiciais ao paciente dos que os disponíveis hoje; criar materiais mais leves e mais resistentes do que metais e plásticos, para prédios, automóveis, aviões; e muito mais inovações em desenvolvimento ou que ainda não foram sequer imaginadas. Economia de energia, proteção ao meio ambiente, menor uso de matérias primas escassas, são possibilidades muito concretas dos desenvolvimentos em nanotecnologia que estão ocorrendo hoje e podem ser antevistos.

No Brasil, a nanotecnologia ainda está começando. Mas, já há resultados importantes. Por exemplo, um grupo de pesquisadores da Embrapa, liderados pelo Dr. L. H. Mattoso, desenvolveu uma “língua eletrônica”, um dispositivo que combina sensores químicos de espessura nanométrica, com um sofisticado programa de computador para detectar sabores. A língua eletrônica da Embrapa, que ganhou prêmios e está patenteada, é mais sensível do que a própria língua humana. Ela é um produto nanotecnológico, pois depende para seu funcionamento da capacidade dos cientistas de sintetizar (criar) novos materiais e de organizá-los, camada molecular por camada molecular, em um sensor que reage eletricamente a diferentes produtos químicos. Você pode imaginar alguns usos para uma língua eletrônica? Para saber mais, visite a página www.cnpdia.embrapa.br. Não é só na Embrapa, entretanto, que se faz nanotecnologia no Brasil. O mesmo acontece nas principais universidades e centros de pesquisa do país.

Aplicações em catálise – isto é, na química e na petroquímica, em entrega de medicamentos, em sensores, em materiais magnéticos, em computação quântica, são alguns exemplos da nanotecnologia sendo desenvolvida no Brasil. O que precisamos agora é aprender a transformar todo este conhecimento em riquezas para o país.

A nanotecnologia é extremamente importante para o Brasil, por que a indústria brasileira terá de competir internacionalmente com novos produtos para que a economia do país se recupere e retome o crescimento econômico. Esta competição somente será bem sucedida com produtos e processos inovadores, que se comparem aos melhores que a indústria internacional oferece. Isto significa que o conteúdo tecnológico dos produtos ofertados pela indústria brasileira terá de crescer substancialmente nos próximos anos e que a força de trabalho do país terá de receber um nível de educação em ciência e Tecnologia muito mais elevado do que o de hoje. Este é um grande desafio para todos nós.

Cylon Gonçalves da Silva é físico, ex-diretor do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron e idealizador do Centro Nacional de Referência em Nanotecnologia.

Nanotecnologia – no mundo do bilionésimo

Nanotecnologia – no mundo do bilionésimo

 

De tempos em tempos ouvimos falar que a ciência avançou de tal forma que o homem passou a poder fazer coisas antes impensáveis. Foi assim com a criação da máquina a vapor, do microscópio, da penicilina, do automóvel, do avião e de tantos outros inventos que revolucionaram a existência humana. Vivemos agora, segundo avalia parte do mundo científico, um novo momento de ruptura, chamado até de a “quinta revolução industrial”: os grandes avanços obtidos na nanotecnologia, que pode revolucionar as relações produtivas atuais.

E o que significa isso?

Nano é um prefixo que quer dizer um bilionésimo de alguma grandeza. Se estivermos falando do padrão de medida metro, tratamos, então, do nanômetro. Um objeto com um nanômetro tem um bilionésimo de um metro (numericamente 0,0000000001 metro), isto é, algo muito pequeno, aproximando-se das dimensões dos átomos que formam toda a matéria que conhecemos. Para termos uma idéia, um simples fio de cabelo tem o diâmetro de aproximadamente 30.000 nanômetros. Já um átomo possui em média 0,2 nanômetro.

É nessa dimensão pequeniníssima que trabalha a nanotecnologia e sua originadora, a nanociência, já que tudo começa na ciência para que sejam desenvolvidas tecnologias que se transformam em produtos manipulados pelo homem. “As pesquisas estão sendo trabalhadas, feitas nessa dimensão. Ou seja, basicamente é você trabalhar átomo por átomo. A nanotecnologia, ou a tecnologia atômica, refere-se a uma gama de novas tecnologias que buscam manipular átomos, moléculas e partículas subatômicas para a criação de novos produtos”, explica o professor Paulo Roberto Martins, sociólogo pesquisador da Divisão de Economia e Engenharia de Sistemas do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) da USP (Universidade de São Paulo).

Invento decisivo

O acesso a tal dimensão vem sendo facilitado após o desenvolvimento de uma tecnologia que permite ao homem visualizar as dimensões muito pequenas, próximas do tamanho dos átomos. Foi em 1981, em Zurique, na Suíça, que a IBM anunciou a criação do microscópio de varredura por tunelamento eletrônico, uma evolução das pesquisas com microscópio eletrônicos que vinham sendo feitas desde a primeira metade do século passado.

“Uma das imagens célebres – que também foi um produto que acabou por ganhar o prêmio Nobel – foi feita pelos pesquisadores da IBM, que primeiro produziram esse tipo de microscópio e foram capazes, logo a seguir, de produzir a imagem da sigla IBM construída com átomos colocados uns atrás dos outros. Este foi um marco na história do desenvolvimento da nanociência”, lembra Martins.

Com este microscópio é possível visualizar estruturas muito pequenas, o que facilita a manipulação dessas estruturas para a conformação de seqüências de átomos ou de moléculas no modo que seja interessante para objeto da pesquisa.

Vale lembrar que mesmo tendo ganhado uma visibilidade maior somente nos últimos anos, a nanociência é uma atividade antiga, que remonta à primeira metade do século XX. “Já se faz nanociência há bastante tempo. Com certeza se faz nanociência há mais de 50 anos”, indica o professor Paulo César Morais, do núcleo de Física Aplicada do Instituto de Física da UnB (Universidade de Brasília).

O escritor Mike Treder, diretor-executivo do CRN (Centro para a Nanotecnologia Responsável, da sigla em inglês), acrescenta que a humanidade foi despertada para a “possibilidade de manobrar-se coisas átomo por átomo” após famosa palestra do físico Richard Feynman em 1959. Porém, os primeiros passos na manipulação das coisas átomo por átomo foi viabilizada nos anos 80 do século passado, com o desenvolvimento do microscópio de força atômica, explica.

O que as novas tecnologias – como os microscópios de tunelamento eletrônico – permitiram foi uma nova apropriação da nanociência, isto é, a geração de produtos que podem vir a ser explorados comercialmente, fonte da nanotecnologia. “Obviamente a nanotecnologia é o segmento, a conseqüência da nanociência. Tanto os materiais nanoestruturados (montados a partir de estruturas nanométricas) quanto essa instrumentação capaz de visualizar e manipular estes materiais podem dar origem a produtos. E a transição entre a nanociência e a comercialização de produtos, essa tradução é onde se assenta o que nós chamamos de nanotecnologia”, diz Morais. “Então, todo esse conhecimento científico básico pode ser comercializado como um novo sucessor da economia mundial. E há uma grande expectativa em relação a isso”, acrescenta.

Revolução

Mas, como em toda a revolução, há sempre as oportunidades e as ameaças. Por esta razão, as discussões sobre o desenvolvimento da nanotecnologia têm sido aquecidas na mesma proporção que as novas descobertas possibilitam a implementação de avanços tecnológicos e científicos.

Para se ter uma idéia de como essa dimensão tão pequena tem capacidade de gerar um movimento tão grande na nossa sociedade que pode alterar os rumos do setor produtivo, a Fundação Nacional de Ciências dos Estados Unidos – agência independente do governo norte-americano dedicada a promover o progresso da ciência – prevê que o segmento da nanociência e da nanotecnologia irá atingir uma movimentação de algo em torno de US$ 1 trilhão em dez ou quinze anos.

“Trata-se de uma tecnologia em escola atômica e que se por um lado encerra promessas de grandes avanços – embora até agora não se saiba muito bem onde e como seriam realizados – por outro lado cria possibilidades de realizar investimentos que possam render mais ou menos o que foi o boom da Internet em meados dos anos 90″, afirma o professor Henrique Rattner, consultor econômico do IPT. “Mas parece que a preocupação com a parte econômica e financeira é maior do que o interesse pela parte científica e tecnológica, embora ainda haja em diversos países centros de estudos e laboratórios que procuram explorar essas áreas de forma não comercial”, avalia Rattner.

Essa tecnologia abre a possibilidade de criação de produtos e soluções nas mais diversas áreas de atuação da humanidade. Pensa-se em processadores de dados muito mais compactos, potentes e velozes que os atuais, encontrados em nossos computadores pessoais; mecanismos autômatos, como robôs, em dimensões minúsculas que poderiam atuar inclusive na área da saúde; ou então equipamentos montados a partir de estruturas minúsculas que possam vir a substituir membros ou órgãos humanos.

Por outro lado, há de se lembrar das ameaças, como os efeitos que a manipulação de estruturas e materiais de dimensão tão pequena podem provocar ao homem e sua saúde, à sociedade e ao meio ambiente. Incluem-se, aí, as pesquisas muito avançadas na área de armamentos.

Avanço vertiginoso

Uma das principais características da nanotecnologia é a velocidade com a qual os avanços se dão nesta área. Para se ter uma idéia, cientistas da Faculdade de Engenharia Elétrica e Computação da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) estimam que em cinco ou dez anos será possível construir um protótipo de nanorrobô com um sexto do tamanho de um glóbulo vermelho que atue dentro do organismo humano podendo ministrar drogas diretamente em áreas pré-determinadas do corpo.

“A tendência é que a redução nos tamanhos e instrumentos continue. O processo de miniaturização é uma coisa galopante. Nós ainda não temos, obviamente, robôs em escala milimétrica na prateleira, mas a gente vai ter nos próximos anos”, prevê Morais.

É na área de saúde, principalmente, que as expectativas quanto à utilidade da nanotecnologia são maiores, já que a manipulação de pequenas estruturas ou de substâncias em dimensões reduzidas podem otimizar de forma decisiva a atuação da medicina. Uma das vertentes de estudos interessantes é a que prevê o uso de materiais nanoestruturados como carreadores de drogas. Um exemplo disso são as chamadas formulações lipossomais, isto é, utilizar-se uma droga em estruturas nanométricas chamadas lipossomas. Esses lipossomas são vesículas em escala nanométrica que são produzidas artificialmente e que têm uma biocompatibilidade muito grande, como explica o professor Morais.

“Você pode, por exemplo, colocar insulina dentro de uma nanocápsula dessas e injetar isso no paciente, tendo-se que a membrana desse lipossoma é construída de tal forma que é sensível ao nível de açúcar no sangue. Essa estrutura é capaz de circular pelo organismo sem ser eliminada ou reconhecida pelo sistema imunológico. Ou seja, ela pode ter um tempo de circulação no organismo muito longo. Quando o nível de açúcar do paciente subir, esta nanocápsula pode abrir e liberar a insulina”, afirma o professor da UnB.

Nanotecnologia no Brasil

Mas em que nível dessa revolução se situa o Brasil?

Desde 2001, o Brasil estimula oficial e diretamente as pesquisas na área, a partir da criação de quatro redes brasileiras de atuação no segmento da nanociência e nanotecnologia. Após a posse do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi criado o Programa de Desenvolvimento da Nanociência e Nanotecnologia, incluído no PPA 2004-2007 (Plano Plurianual, que determina o planejamento estratégico dos investimentos do país durante quatro anos).

Agora em 2004, o orçamento para o desenvolvimento da área de nanociência e nanotecnologia prevê investimentos oficiais de R$ 8,7 milhões. Até 2007, segundo o PPA, esses investimentos devem totalizar quase R$ 80 milhões. É pouco, quando comparamos os investimentos realizados por países desenvolvidos neste segmento. Os Estados Unidos, por exemplo, investiram algo em torno de US$ 1,5 bilhão no ano passado nesta área, sendo US$ 900 milhões do governo e US$ 600 milhões da iniciativa privada.

“A comunidade científica brasileira está hoje bem organizada em relação à nanociência. O Brasil faz hoje nanociência de excelente qualidade… o país tem uma potencialidade muito grande nessa área. Agora, para você saltar de nanociência para nanotecnologia – e aí você poder ter produtos brasileiros no mercado internacional baseados em nanociência -, para você agregar valor a esses produtos, colocando-os em condições viáveis no mercado, para você ter retorno e vencer essa barreira, tem de ter mais investimento”, avalia o professor Paulo Morais.

Ele defende que esse investimento e a organização dessa tarefa fiquem nas mãos do Estado. “É preciso que o governo federal faça um plano para a nanotecnologia. Este é o momento. O Brasil ainda tem espaço para construir um plano para a nanociência e a nanotecnologia. A nanociência brasileira já está razoavelmente organizada. Mas a nanotecnologia brasileira não existe. Não há instrumentos, não há uma política de médio e longo prazo para a nanotecnologia. É preciso criar essa política séria e é preciso fazer investimento sério. Mas é preciso também que o governo traga para esta tarefa a iniciativa privada. Porém, de qualquer forma, quem tem que organizar isso e estimular a sociedade dentro desta iniciativa é o governo.”

O professor cita ainda um exemplo comparativa com um país europeu para dimensionar o atraso no quesito investimento notado no Brasil: “Recentemente visitei na Suíça um centro de porte médio que trabalha com nanociência e nanotecnologia, com 250 pesquisadores trabalhando… Esse centro tem um orçamento anual de entre 50 e 60 milhões de euros. Cerca de 35% desse orçamento vêm do governo federal; mais 35% vêm das indústrias, das empresas; e os restantes 30% são contratos… Nesses últimos dois anos e pouco de atividade, o governo colocou na área menos de 3 milhões de euros. As quatro redes de pesquisa brasileiras têm hoje cerca de 600 pesquisadores, com nível de doutorado em nanociência. Então veja, o número de pesquisadores que nós temos é mais do que o dobro do que esse centro suíço, só que nosso governo colocou aqui cerca de 1,5 milhão de euros por ano. Perceba aí a diferença de aporte de recursos”.

Mesmo com a restrição de recursos, Morais considera que o Brasil vem se destacando no cenário científico quando o assunto é nanociência. Ele lembra que alguns países já perceberam que “o Brasil está fazendo nanociência com um rendimento fantástico”. “Quer dizer, o país não investe muitos recursos e tem um resultado fantástico. Portanto, a questão custo-benefício aí é extremamente favorável. A comunidade brasileira, com poucos recursos, consegue dar uma resposta fantástica em nanociência. Então, para eles é uma excelente oportunidade de fazer cooperação com o Brasil. Eles sabem que têm instrumentos para, a partir da nanociência, construir nanotecnologia. Nós não temos esses instrumentos”, conclui.

 Compilado por Luiz Antonio

Nanotecnologia

Nanotecnologia

De tempos em tempos ouvimos falar que a ciência avançou de tal forma que o homem passou a poder fazer coisas antes impensáveis. Foi assim com a criação da máquina a vapor, do microscópio, da penicilina, do automóvel, do avião e de tantos outros inventos que revolucionaram a existência humana. Vivemos agora, segundo avalia parte do mundo científico, um novo momento de ruptura, chamado até de a “quinta revolução industrial”: os grandes avanços obtidos na nanotecnologia, que pode revolucionar as relações produtivas atuais.
E o que significa isso?
Nano é um prefixo que quer dizer um bilionésimo de alguma grandeza. Se estamos falando do padrão de medida metro, tratamos, então, do nanômetro. Um objeto com um nanômetro tem um bilionésimo de um metro (numericamente 0,0000000001 metro), isto é, algo muito pequeno, aproximando-se das dimensões dos átomos que formam toda a matéria que conhecemos. Para termos uma idéia, um simples fio de cabelo tem o diâmetro de aproximadamente 30.000 nanômetros. Já um átomo possui em média 0,2 nanômetro.
É nessa dimensão pequeniníssima que trabalha a nanotecnologia e sua originadora, a nanociência, já que tudo começa na ciência para que sejam desenvolvidas tecnologias que se transformam em produtos manipulados pelo homem. “As pesquisas estão sendo trabalhadas, feitas nessa dimensão. Ou seja, basicamente é você trabalhar átomo por átomo. A nanotecnologia, ou a tecnologia atômica, refere-se a uma gama de novas tecnologias que buscam manipular átomos, moléculas e partículas subatômicas para a criação de novos produtos”, explica o professor Paulo Roberto Martins, sociólogo pesquisador da Divisão de Economia e Engenharia de Sistemas do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) da USP (Universidade de São Paulo).
Invento decisivo
O acesso a tal dimensão vem sendo facilitado após o desenvolvimento de uma tecnologia que permite ao homem visualizar as dimensões muito pequenas, próximas do tamanho dos átomos. Foi em 1981, em Zurique, na Suíça, que a IBM anunciou a criação do microscópio de varredura por tunelamento eletrônico, uma evolução das pesquisas com microscópio eletrônicos que vinham sendo feitas desde a primeira metade do século passado.
“Uma das imagens célebres – que também foi um produto que acabou por ganhar o prêmio Nobel – foi feita pelos pesquisadores da IBM, que primeiro produziram esse tipo de microscópio e foram capazes, logo a seguir, de produzir a imagem da sigla IBM construída com átomos colocados uns atrás dos outros. Este foi um marco na história do desenvolvimento da nanociência”, lembra Martins.
Com este microscópio é possível visualizar estruturas muito pequenas, o que facilita a manipulação dessas estruturas para a conformação de seqüências de átomos ou de moléculas no modo que seja interessante para objeto da pesquisa.
Vale lembrar que mesmo tendo ganhado uma visibilidade maior somente nos últimos anos, a nanociência é uma atividade antiga, que remonta à primeira metade do século XX. “Já se faz nanociência há bastante tempo. Com certeza se faz nanociência há mais de 50 anos”, indica o professor Paulo César Morais, do núcleo de Física Aplicada do Instituto de Física da UnB (Universidade de Brasília).
O escritor Mike Treder, diretor-executivo do CRN (Centro para a Nanotecnologia Responsável, da sigla em inglês), acrescenta que a humanidade foi despertada para a “possibilidade de manobrar-se coisas átomo por átomo” após famosa palestra do físico Richard Feynman em 1959. Porém, os primeiros passos na manipulação das coisas átomo por átomo foi viabilizada nos anos 80 do século passado, com o desenvolvimento do microscópio de força atômica, explica.
O que as novas tecnologias – como os microscópios de tunelamento eletrônico – permitiram foi uma nova apropriação da nanociência, isto é, a geração de produtos que podem vir a ser explorados comercialmente, fonte da nanotecnologia. “Obviamente a nanotecnologia é o segmento, a conseqüência da nanociência. Tanto os materiais nanoestruturados (montados a partir de estruturas nanométricas) quanto essa instrumentação capaz de visualizar e manipular estes materiais podem dar origem a produtos. E a transição entre a nanociência e a comercialização de produtos, essa tradução é onde se assenta o que nós chamamos de nanotecnologia”, diz Morais. “Então, todo esse conhecimento científico básico pode ser comercializado como um novo sucessor da economia mundial. E há uma grande expectativa em relação a isso”, acrescenta.
Revolução
Mas, como em toda a revolução, há sempre as oportunidades e as ameaças. Por esta razão, as discussões sobre o desenvolvimento da nanotecnologia têm sido aquecidas na mesma proporção que as novas descobertas possibilitam a implementação de avanços tecnológicos e científicos.
Para se ter uma idéia de como essa dimensão tão pequena tem capacidade de gerar um movimento tão grande na nossa sociedade que pode alterar os rumos do setor produtivo, a Fundação Nacional de Ciências dos Estados Unidos – agência independente do governo norte-americano dedicada a promover o progresso da ciência – prevê que o segmento da nanociência e da nanotecnologia irá atingir uma movimentação de algo em torno de US$ 1 trilhão em dez ou quinze anos.
“Trata-se de uma tecnologia em escola atômica e que se por um lado encerra promessas de grandes avanços – embora até agora não se saiba muito bem onde e como seriam realizados – por outro lado cria possibilidades de realizar investimentos que possam render mais ou menos o que foi o boom da Internet em meados dos anos 90”, afirma o professor Henrique Rattner, consultor econômico do IPT. “Mas parece que a preocupação com a parte econômica e financeira é maior do que o interesse pela parte científica e tecnológica, embora ainda haja em diversos países centros de estudos e laboratórios que procuram explorar essas áreas de forma não comercial”, avalia Rattner.
Essa tecnologia abre a possibilidade de criação de produtos e soluções nas mais diversas áreas de atuação da humanidade. Pensa-se em processadores de dados muito mais compactos, potentes e velozes que os atuais, encontrados em nossos computadores pessoais; mecanismos autômatos, como robôs, em dimensões minúsculas que poderiam atuar inclusive na área da saúde; ou então equipamentos montados a partir de estruturas minúsculas que possam vir a substituir membros ou órgãos humanos.
Por outro lado, há de se lembrar das ameaças, como os efeitos que a manipulação de estruturas e materiais de dimensão tão pequena podem provocar ao homem e sua saúde, à sociedade e ao meio ambiente. Incluem-se, aí, as pesquisas muito avançadas na área de armamentos.
Avanço vertiginoso
Uma das principais características da nanotecnologia é a velocidade com a qual os avanços se dão nesta área. Para se ter uma idéia, cientistas da Faculdade de Engenharia Elétrica e Computação da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) estimam que em cinco ou dez anos será possível construir um protótipo de nanorrobô com um sexto do tamanho de um glóbulo vermelho que atue dentro do organismo humano podendo ministrar drogas diretamente em áreas pré-determinadas do corpo.
“A tendência é que a redução nos tamanhos e instrumentos continue. O processo de miniaturização é uma coisa galopante. Nós ainda não temos, obviamente, robôs em escala milimétrica na prateleira, mas a gente vai ter nos próximos anos”, prevê Morais.
É na área de saúde, principalmente, que as expectativas quanto à utilidade da nanotecnologia são maiores, já que a manipulação de pequenas estruturas ou de substâncias em dimensões reduzidas podem otimizar de forma decisiva a atuação da medicina. Uma das vertentes de estudos interessantes é a que prevê o uso de materiais nanoestruturados como carreadores de drogas. Um exemplo disso são as chamadas formulações lipossomais, isto é, utilizar-se uma droga em estruturas nanométricas chamadas lipossomas. Esses lipossomas são vesículas em escala nanométrica que são produzidas artificialmente e que têm uma biocompatibilidade muito grande, como explica o professor Morais.

“Você pode, por exemplo, colocar insulina dentro de uma nanocápsula dessas e injetar isso no paciente, tendo-se que a membrana desse lipossoma é construída de tal forma que é sensível ao nível de açúcar no sangue. Essa estrutura é capaz de circular pelo organismo sem ser eliminada ou reconhecida pelo sistema imunológico. Ou seja, ela pode ter um tempo de circulação no organismo muito longo. Quando o nível de açúcar do paciente subir, esta nanocápsula pode abrir e liberar a insulina”, afirma o professor da UnB.
Nanotecnologia no Brasil
Mas em que nível dessa revolução se situa o Brasil?
Desde 2001, o Brasil estimula oficial e diretamente as pesquisas na área, a partir da criação de quatro redes brasileiras de atuação no segmento da nanociência e nanotecnologia. Após a posse do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi criado o Programa de Desenvolvimento da Nanociência e Nanotecnologia, incluído no PPA 2004-2007 (Plano Plurianual, que determina o planejamento estratégico dos investimentos do país durante quatro anos).
Agora em 2004, o orçamento para o desenvolvimento da área de nanociência e nanotecnologia prevê investimentos oficiais de R$ 8,7 milhões. Até 2007, segundo o PPA, esses investimentos devem totalizar quase R$ 80 milhões. É pouco, quando comparamos os investimentos realizados por países desenvolvidos neste segmento. Os Estados Unidos, por exemplo, investiram algo em torno de US$ 1,5 bilhão no ano passado nesta área, sendo US$ 900 milhões do governo e US$ 600 milhões da iniciativa privada.
“A comunidade científica brasileira está hoje bem organizada em relação à nanociência. O Brasil faz hoje nanociência de excelente qualidade… o país tem uma potencialidade muito grande nessa área. Agora, para você saltar de nanociência para nanotecnologia – e aí você poder ter produtos brasileiros no mercado internacional baseados em nanociência -, para você agregar valor a esses produtos, colocando-os em condições viáveis no mercado, para você ter retorno e vencer essa barreira, tem de ter mais investimento”, avalia o professor Paulo Morais.
Ele defende que esse investimento e a organização dessa tarefa fiquem nas mãos do Estado. “É preciso que o governo federal faça um plano para a nanotecnologia. Este é o momento. O Brasil ainda tem espaço para construir um plano para a nanociência e a nanotecnologia. A nanociência brasileira já está razoavelmente organizada. Mas a nanotecnologia brasileira não existe. Não há instrumentos, não há uma política de médio e longo prazo para a nanotecnologia. É preciso criar essa política séria e é preciso fazer investimento sério. Mas é preciso também que o governo traga para esta tarefa a iniciativa privada. Porém, de qualquer forma, quem tem que organizar isso e estimular a sociedade dentro desta iniciativa é o governo.”

O professor cita ainda um exemplo comparativa com um país europeu para dimensionar o atraso no quesito investimento notado no Brasil: “Recentemente visitei na Suíça um centro de porte médio que trabalha com nanociência e nanotecnologia, com 250 pesquisadores trabalhando… Esse centro tem um orçamento anual de entre 50 e 60 milhões de euros. Cerca de 35% desse orçamento vêm do governo federal; mais 35% vêm das indústrias, das empresas; e os restantes 30% são contratos… Nesses últimos dois anos e pouco de atividade, o governo colocou na área menos de 3 milhões de euros. As quatro redes de pesquisa brasileiras têm hoje cerca de 600 pesquisadores, com nível de doutorado em nanociência. Então veja, o número de pesquisadores que nós temos é mais do que o dobro do que esse centro suíço, só que nosso governo colocou aqui cerca de 1,5 milhão de euros por ano. Perceba aí a diferença de aporte de recursos”.

Mesmo com a restrição de recursos, Morais considera que o Brasil vem se destacando no cenário científico quando o assunto é nanociência. Ele lembra que alguns países já perceberam que “o Brasil está fazendo nanociência com um rendimento fantástico”. “Quer dizer, o país não investe muitos recursos e tem um resultado fantástico. Portanto, a questão custo-benefício aí é extremamente favorável. A comunidade brasileira, com poucos recursos, consegue dar uma resposta fantástica em nanociência. Então, para eles é uma excelente oportunidade de fazer cooperação com o Brasil. Eles sabem que têm instrumentos para, a partir da nanociência, construir nanotecnologia. Nós não temos esses instrumentos”, conclui.